Quando o corpo recorda: memória e sentido na Terapia Ocupacional 🌿

Um olhar da Terapia Ocupacional sobre o poder dos sentidos na produção de vida.

Em um dos atendimentos realizados em minha clínica, acompanhando uma mulher com demência, ela escolheu as plantas pela lembrança do cheiro.
Lavanda, jasmim, camomila, hortelã — cada aroma despertava algo que estava guardado.

Antes mesmo do escalda-pés, houve o momento de ir até a horta e escolher as ervas.
O contato com a terra, o reconhecimento das plantas e a decisão sobre quais levar — tudo isso compôs um processo de cuidado que se estendia do início ao fim da atividade.
Havia ali uma sequência de acontecimentos analisada pela profissional, que envolvia atenção, memória, coordenação, desejo e sentido.

Suas mãos, que antes cuidavam da horta, agora mergulhavam novamente em sal grosso e óleo essencial, no preparo do escalda-pés.
Era uma atividade de reencontro.
O gesto, o toque, o perfume, o som da água quente — tudo ali fazia parte de uma história que o corpo ainda sabia contar.

Na Terapia Ocupacional, buscamos esses lugares de encontro entre o vivido e o possível.
A atividade significativa não é apenas o fazer, mas o modo como ela convoca a vida: o que desperta desejo, memória, afeto, autonomia.

Com ela, a produção de vida acontecia nas pequenas coisas — entre o cheiro das ervas e o calor da água — quando o cuidado voltava a ter sentido. 💜

Mesmo em condições progressivas, como a demência, há espaços onde o cuidado pode florescer.
Os sentidos abrem frestas — um cheiro, um som, uma textura — e por elas, algo de si pode emergir novamente.
Cuidar, nesse contexto, é reconhecer que a vida não se apaga por completo: ela se transforma, busca novas formas de expressão.

E é nesse intervalo, entre o lembrar e o viver, que a Terapia Ocupacional encontra seu campo mais bonito: o de fazer emergir o que ainda pulsa. 🌿

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